Segunda-feira, Outubro 31, 2005

Drama de costumes

Priscillo entra. Senta na cadeira à frente, de frente para nós, ansiosos para ouvi-lo. Foco de luz diretamente sobre ele, o resto preto, só o brilho embrasado da nossa curiosidade.

- Eu estava na cozinha - touca no cabelo, creme no rosto. Preparava uma sopa - o Júnior estava com urticária. Quando de repente alguém tocou a campainha. Fui atender limpando as mãos no avental. Pensei até que era a minha vizinha, a Mirtes. Abri a porta e era ele. Eu olhei pra ele e disse: "oi, bem, tudo bem?" - Ele me deu um tapa e eu voei. Ainda me levantei e perguntei: "você tá nervoso, bem?" - ele me deu outro tapa, dessa vez eu fui parar na porta do quarto. Fui arrumando a minha mala como uma louca, colocando tudo dentro. Passei por ele duro como uma pedra e corri em direção ao elevador. Ele veio atrás. Uma das minhas meias de seda - a mais fina, das de sair - ficou presa do lado de fora do elevador. Ele pegou e começou a puxar. Eu puxava de cá, ele puxava de lá. Eu puxava de cá, ele puxava de lá. Quando, de repente, a porta do elevador se abriu e eu dei de cara com ele. Ele olhou para mim e disse: "Priscillo, volta pra casa".

Segunda-feira, Outubro 03, 2005

HOJE É ANIVERSÁRIO DA MINHA CIDADE!!!
173 aninhos

Sexta-feira, Setembro 16, 2005

Drops

Oquêi, aqui vão as atualizações da vida de Heleno:

- Passei a conhecer 90% dos antiquários do Rio de Janeiro. Já rodei alguns deles várias vezes com my love, a ponto de ficarmos conhecidos dos vendedores. É uma cena interessante ver meu namorado vendo as peças vestindo suas luvas brancas e fingindo que não está louco por elas, só pra pechinchar o preço depois.

- Tenho acordado 5h30 três dias da semana para poder ir à academia antes da aula e pegá-la vazia. O corpitcho anda melhorando, como nunca tive antes e como sempre quis ter, mas ainda não na perfeição (saudável) que ainda quero ficar. Em compensação minhas olheiras, já naturalmente aparentes, estão um pouco maiores e meu sono durante e entre as aulas também.

- A academia está ficando terrivelmente familiar para mim. Tudo está igual. Pelo menos tenho meu namorado lá também, pra me dar apoio e me incentivar.

- A faculdade anda estressante, muitas coisas para fazer e entregar. Cheguei à conclusão de que odeio MESMO trabalho de grupo. Desde o colégio que odeio; ou faço tudo sozinho ou não faço nada, e saber que sua nota no final do período também depende daquela menina burrinha que entrou no seu grupo atrasada... Além disso ainda tenho um amigo para acompanhar ao piano no vestibular; uma amiga que me pediu para cantar na sua apresentação do relatório; e meu namorado que vai se apresentar no fim do ano e é claro que eu vou acompanhá-lo, faço questão disso, além se de ser um grande prazer.

- Também descobri em mim mesmo uma disposição que não sabia que tinha.

- Cantar com orquestra é uma das melhores coisas que há. Às vezes chega a ser melhor que ouvi-la.

- É muito interessante a mudança de atitude das pessoas quando você passa de colega para "sujeito de suposto saber", como foi meu caso quando a maestrina do nosso coro me pediu para que liderasse o ensaio do naipe masculino. Quando você está cantando, a atitude deles para contigo é uma; quando você está lá na frente, e a entrada deles depende dos seus gestos, e você ensina como se pronuncia aquilo tudo em alemão e eles vão repetindo bonitinho o que você diz que é, a atitude muda, uns obedecem à regência, outros vão contra, outros nem ligam, outros querem te desafiar, é muito interessante vivenciar na pele essa mudança. E eu vivenciei isso ontem, quando ensaiei com eles nada mais, nada menos que a 9a. sinfonia de Beethoven; sim, essa mesma.

- Vi que estou mais forte às críticas negativas.

- Vi que no Rio também faz frio, mesmo que por alguns diazinhos.

- Assisti 4 óperas e um balé.

- Dia 7 desse mês fez seis meses que não fumo. Mesmo quando fui para minha cidadezinha, onde minha família e meus amigos fumam, resisti e quase nem pensei em cigarro, já estou esquecendo esse hábito, muito embora seja difícil às vezes. Tem noites que sonho que estou fumando e é sempre o mesmo, como se de repente me visse fumando e ficasse extremamente arrependido, pensando na decepção que isso causa em mim e nos outros.

- Descobri também que adoro ler os blogues de vocês, muito mais do que escrever o meu próprio. Não sei, talvez na época em que eu tivesse criatividade suficiente para escrever meus contos, onde tudo ficava bem no final, eu gostasse mais. Vamos ver o que o futuro reserva a mim e ao blogue.

Sábado, Julho 30, 2005

De como se medem raízes

Sou de cidade pequena. Muito pequena, interior mesmo. Estudo na capital, mas vez ou outra tenho que voltar pra ver os ficaram. Minha mãe, por exemplo. Antes, no começo da faculdade, eu considerava minha casa essa da cidadezinha, então todo o fim-de-semana eu “voltava” pra casa. E era assim mesmo, todo o fim-de-semana eu ia pra lá. O Rio me deprimia, eu tinha muito medo de tudo e costumava dizer que todos eram mesquinhos e antipáticos comigo. Não era bem verdade, eu dizia isso por puro auto-protecionismo; amedrontado, me fechei num lugarzinho e qualquer coisa era desculpa pra voltar pra casa. Esse medo me causou males dos quais um dia, quem sabe, vocês lerão na minha biografia, quando tudo isso estiver muito, muito longe.

Hoje as coisas são diferentes, já não tenho mais tanto medo da cidade, nem das pessoas. O fator decisivo para que isso acontecesse, acho que vocês já podem imaginar. Sim, meu lindo namorado, do qual falo aqui às vezes, muito embora eu ache que não fale o bastante. Pois então, por causa dele a cidade que eu tanto temia agora é bem mais acolhedora, porque abriga aquele ser belíssimo que só tem me dado alegrias nesses tempos.

Então, hoje em dia, quando venho para minha cidadezinha, coisa que faço cada vez mais esporadicamente, é como uma volta a um lugar antigo, a um antigo Heleno.

O caminho do Rio até minha cidade é muito bonito, bem rural mesmo, passando por lugarejos ermos, casas separadas do resto do mundo, com seus terreiros frontais, varais estendidos com roupa colorida pendurada, cachorros engraçados, crianças, pessoas devagares.

E hoje a tarde estava tão linda, um sol oblíquo, claro, limpo, dava a tudo uma aura de sonho. E eu estava triste porque estava indo para longe do meu namorado. E eu estava melancólico por causa da paisagem. E eu estava achando tudo muito poético, inclusive a minha volta, a volta do filho do meio, que estuda fora, na capital, indo ver a mãe no interior. E as lágrimas já brotavam, lentas e quentes, nos meus olhos embeiçados.

Aí eu resolvo ler um pouco meu livro, que estou devorando va-ga-ro-sa-men-te, “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, pra me distanciar daquele sonho. Aí tem escrito assim:

Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutúm.

(...)
Entretanto, Miguilim não era do Mutum. Tinha nascido ainda mais longe, também em buraco de mato, lugar chamado Pau-Rôxo, na beira do Saririnhém. De lá, separadamente, se recordava de sumidas coisas, lembranças que ainda hoje o assustavam. (...) Umas moças, cheirosas, limpas, os claros risos bonitos, pegavam nele, o levavam para a beira duma mesa, ajudavam-no a provar, de uma xícara grande, goles de um de-beber quente, que cheirava à claridade. Depois, na alegria num jardim, deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas – cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha. As frutas que a gente comia.


Me emocionei, não contive lágrimas ao ler isso, avistar o que passava do lado de fora da minha janela do ônibus e ver essas pequenas casas caiadas, com aquelas pessoas de cabelo molhado, banho tomado depois do dia de trabalho; consegui sentir o perfume do sabonete, foi uma emoção muito louca e forte, vermelha mesmo. E esse gênio, monstro da literatura, como ele consegue traduzir tanta coisa assim?! Só falando palavrão mesmo, um puto. E agora Heleno fica assim, coração bambo no peito e uma sensação de abismo nas pontas dos dedos. Na boca um gosto de vela acesa. Meu querido, estou indo...

Terça-feira, Julho 19, 2005

Será que dá pra você parar de me encostar?
Será que dá pra você parar de ser tão gorda?


Ônibus podem ser tão divertidos...

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Das marmotas suadas que carregamos pelos campos de girassóis

Férias totais!!!

Declaro aberta a temporada de infinitas possibilidades!

Num bar, na tribo dos canibais, dois rapazes conversam descontraidamente. Ao lado deles passa uma moça sem o braço esquerdo. Um rapaz aponta pra ela, vira pro outro e diz: "alá, tô comendo".

Legalzinha essa piadinha, né?

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Dos quadrados no edredon, grandes e pequenos

Caramba, quanto tempo sem postar...!

Eu sei que vocês adoram saber da vida dos outros, assim como eu, leitor de blogues diversos. Vamos tentar fazer com a coisa seja leve e rápida, uns pequenos high-lights do período não postado.

1 - Assisti Batman e gostei bastante; claro que o efeito de ter visto no cinema ajudou, mas não me arrependi nem um pouco. Também assisti Guerra dos Mundos e gostei um pouco; as cenas de ação, o enredo até os últimos 5 minutos finais foram bem interessantes, porém não dá para ficar discutindo e questionando os porquês da história senão cai tudo por terra, a estrutura não se sustenta sozinha não. Tom Cruise está até bem comportado, discreto, enfim... Spielberg é que devia crescer ou fazer uma analisezinha, porque estou cansado de ver como ele lida com as frustrações paternas nos filmes, acaba me dando a tal da "vergonha empática", quando vejo cenas desse tipo.

2 - Na faculdade continuo sendo muito bem quisto por meus professores, sendo citado várias vezes como exemplo para meus colegas e assim conquistando respeito, auto-estima e alguns inimigos, hehehe. Depois de um concerto do nosso coral, a maestrina me disse que eu havia sido "peça fundamental para que o concerto acontecesse", me sinto uma criancinha recebendo o tão esperado "isso mesmo, muito bem!"

3 - Aniversários por toda parte, engordando e me enchendo de espinhas.

4 - Dias frios, afrodisíacos...

5 - Björk e Matthew Barney sendo muito acessados por aqui. Qualquer dia desses discorro um pouco sobre o trabalho de Matthew, o Ciclo Cremaster, que conheci através do meu queridão e adoro muito.

No mais, são as provas e as férias chegando; como se não bastassem esses 10 meses, quero esse julho inteiro debaixo das cobertas com meu lindo.



foto do Cremaster 3, escrito e dirigido por Matthew Barney, © 2002