Sou de cidade pequena. Muito pequena, interior mesmo. Estudo na capital, mas vez ou outra tenho que voltar pra ver os ficaram. Minha mãe, por exemplo. Antes, no começo da faculdade, eu considerava minha casa essa da cidadezinha, então todo o fim-de-semana eu “voltava” pra casa. E era assim mesmo, todo o fim-de-semana eu ia pra lá. O Rio me deprimia, eu tinha muito medo de tudo e costumava dizer que todos eram mesquinhos e antipáticos comigo. Não era bem verdade, eu dizia isso por puro auto-protecionismo; amedrontado, me fechei num lugarzinho e qualquer coisa era desculpa pra voltar pra casa. Esse medo me causou males dos quais um dia, quem sabe, vocês lerão na minha biografia, quando tudo isso estiver muito, muito longe.
Hoje as coisas são diferentes, já não tenho mais tanto medo da cidade, nem das pessoas. O fator decisivo para que isso acontecesse, acho que vocês já podem imaginar. Sim, meu lindo namorado, do qual falo aqui às vezes, muito embora eu ache que não fale o bastante. Pois então, por causa dele a cidade que eu tanto temia agora é bem mais acolhedora, porque abriga aquele ser belíssimo que só tem me dado alegrias nesses tempos.
Então, hoje em dia, quando venho para minha cidadezinha, coisa que faço cada vez mais esporadicamente, é como uma volta a um lugar antigo, a um antigo Heleno.
O caminho do Rio até minha cidade é muito bonito, bem rural mesmo, passando por lugarejos ermos, casas separadas do resto do mundo, com seus terreiros frontais, varais estendidos com roupa colorida pendurada, cachorros engraçados, crianças, pessoas devagares.
E hoje a tarde estava tão linda, um sol oblíquo, claro, limpo, dava a tudo uma aura de sonho. E eu estava triste porque estava indo para longe do meu namorado. E eu estava melancólico por causa da paisagem. E eu estava achando tudo muito poético, inclusive a minha volta, a volta do filho do meio, que estuda fora, na capital, indo ver a mãe no interior. E as lágrimas já brotavam, lentas e quentes, nos meus olhos embeiçados.
Aí eu resolvo ler um pouco meu livro, que estou devorando va-ga-ro-sa-men-te, “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, pra me distanciar daquele sonho. Aí tem escrito assim:
Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutúm.
(...)
Entretanto, Miguilim não era do Mutum. Tinha nascido ainda mais longe, também em buraco de mato, lugar chamado Pau-Rôxo, na beira do Saririnhém. De lá, separadamente, se recordava de sumidas coisas, lembranças que ainda hoje o assustavam. (...) Umas moças, cheirosas, limpas, os claros risos bonitos, pegavam nele, o levavam para a beira duma mesa, ajudavam-no a provar, de uma xícara grande, goles de um de-beber quente, que cheirava à claridade. Depois, na alegria num jardim, deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas – cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha. As frutas que a gente comia.
Me emocionei, não contive lágrimas ao ler isso, avistar o que passava do lado de fora da minha janela do ônibus e ver essas pequenas casas caiadas, com aquelas pessoas de cabelo molhado, banho tomado depois do dia de trabalho; consegui sentir o perfume do sabonete, foi uma emoção muito louca e forte, vermelha mesmo. E esse gênio, monstro da literatura, como ele consegue traduzir tanta coisa assim?! Só falando palavrão mesmo, um puto. E agora Heleno fica assim, coração bambo no peito e uma sensação de abismo nas pontas dos dedos. Na boca um gosto de vela acesa. Meu querido, estou indo...